[MANIFESTO 2018] Luzcamerização do Olhar

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LUZCAMERIZAÇÃO DO OLHAR
Por Juliana Motta & Igor Amin

A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
Paulo Freire

 

Partimos do pressuposto de que os olhos são como câmeras, ou as câmeras são máquinas baseadas na fisiologia da visão em extensão ao corpo que experiencia o mundo. Olhos, quase todos temos, já a acuidade da visão sensível é um atributo que requer constante exercício. O exercício da humanização do olhar. Rubem Alves nos inspira quando diz que há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem:

O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente. São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida. Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança jamais será sábio.

Como posso ver a realidade de um outro mundo se me fecho para resguardar uma ideia, um conceito, a realidade que conheço? É um caminho sem volta o contato das crianças e jovens com as novas tecnologias que proliferam no mundo por meio dos celulares, computadores e outros recursos. Eles trazem acesso aos conteúdos audiovisuais, incluindo fotos, áudios e outros tipos de interações simbólicas com as imagens. E então? Para onde estamos apontando nossas lentes? Sabemos usar os filtros adequados? Quais luzes estamos capturando? Em que intensidade, profundidade e foco? Com que olhar fotografamos e registramos internamente as imagens que habitam o fora? Poderíamos tratar a sétima arte como uma brincadeira que registra e partilha a vida, assim como um um recurso de autoconhecimento para enxergarmos nós mesmo protagonistas do mundo que queremos?

Acreditamos que a metáfora dos olhos e das câmeras e seus aparatos tecnológicos estão alinhadas aos princípios do projeto “O que queremos para o mundo?”, onde essa comunidade de pessoas intencionadas ao estado de criação, acredita em uma possibilidade da pedagogia do olhar a partir da descolonização do olhar sobre as infâncias, no plural, claro. Como nos diz Gilberto Gil, em sua canção Do Japão:

Quero uma máquina de filmar sonhos
Pra registrar nas noites de verão
Meu corpo astral leve, feliz, risonho
Voando alto como um gavião
Que filme dentro de minha cabeça
Todo pensamento raro que eu mereça
Toda ilusão a cores que apareça
Toda beleza de sonhar em vão.

A pergunta “O que queremos para o mundo?” se desdobra em inúmeras outras, e as respostas não vêm necessariamente na mesma velocidade e quantidade dos questionamentos. Diante do uso que fazemos das câmeras e outras tecnologias será que caberia a pergunta: que mundo estamos criando? Estamos cientes da força de nossas criaturas? Os mundos que criamos realmente são os mundos de nossas querências? A utilização do audiovisual de forma didática nas instituições escolares poderia ir além de uma mera ferramenta tecnológica, se transfigurando em um dispositivo que potencialize a construção das identidades?

Nos deparamos com mais interrogações do que pontos finais, mas já percebemos uma sinalização de que o mundo que queremos mudar, assim como os mundos que existem para além das nossas fronteiras e os mundos com os quais podemos sonhar precisam ser bem olhados, cuidadosamente analisados, tal qual em uma interação quântica, onde o olhar do observador tem o poder de modificar o objeto observado. A ação de observar já é criadora em si. O olhar direciona mundos. O mundo que queremos estará assim diretamente relacionado com o olhar que exercemos. Fazemos um convite para olharmos além do mundo raso no qual vivemos. Para começo de diálogo, propomos o olhar sobre seis mundos que formam uma mandala de possibilidades trazendo luz a um possível mundo que queremos. Os mundo das interações: Dentro de Mim, dos Sonhos, do Txai (do Outro em Mim), da Tecnologia, da Natureza e do Aqui e Agora.

Rubem Alves novamente nos acrescenta quando diz que:

 O que eu pediria de cada professor é que tivesse um olhar manso, nada mais que isso. Um olhar manso porque se tiverem um olhar que produz medo não haverá aprendizagem, é impossível se aprender com medo.

 O medo é o pai da raiva, que é parente da intolerância, que é vizinha da exclusão, que é mãe da guerra. A mansidão é uma boa rainha, amiga irmã do acolhimento, amante da alegria, que é irmã gêmea da brincadeira. E a brincadeira é mãe ancestral do desenvolvimento sadio da inteligência humana. Nas nossas relações, a despeito dos sistemas hierárquicos, patriarcais e colonizadores estabelecidos, a razoabilidade está na consciência de que exercemos simultaneamente mais de um papel. Somos observadores e observados, influenciadores e influenciados, projetores e projetados, iluminadores e iluminados, sombreadores e sombreados.  Amansar o olhar é ação que vai alterar uma via de duas ou mais mãos. Uma sensibilização multidirecional que gera espaço para a diversidade na unidade.

Uma expansão da nossa percepção dos mundos talvez nos demonstra que o mundo que queremos já esteja embutido na realidade que rejeitamos. O olhar manso aceita e acolhe o novo, o outro. E como a ação de olhar tem o poder de criar, o olhar manso tem o poder de criar espaços nos quais o potencial do outro pode aflorar, encontrando aí uma imagem de si mesmo que talvez seja reveladora, propulsora. E o que nos difere dos animais ou de nós mesmos enquanto pouco humanizados é justamente a qualidade do olhar que lançamos sobre os mundos que nos compõem. A transcendência das relações-mundos que não queremos tem conexão direta com a quebra de paradigmas relacionais, nos quais a existência do colonizador sustenta existência da escravisão. As relações adoecidas por retroalimentação precisam dar lugar a outras, mais colaborativas e que partam de posições de liberdade. Deixemos o outro ser. E sejamos

Os poetas, as crianças e os loucos são bons em criar mundos. Têm um olhar que enxerga além aquém, aqui e acolá, e são fiéis tradutores dos idiomas transmundiais. Manoel de Barros olhou para as visões de mundo e nos traduziu sua experiência assim:

A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.

Luz, Câmera, Ação! Um ato cinematográfico que trazemos com o potencial de Ver, Rever e Transver. Trazer a luz para Ver, enxergar, aprender com as experiências, com as bagagens de cada um, com o que já foi construído, reconhecimento do que se foi até aqui, individual e coletivamente. Um olhar desperto. No corpo de uma câmera, o diafragma tem a função de abrir a máquina para regular a intensidade da luz que entra, assim como os tipos de frequência dos raios solares. É a pupila da câmera, parte que traz a profundidade de campo, intensidade de luz e foco para captura da realidade. Buscar a câmera para rever, seja uma realidade exterior e concreta, seja um pensamento que precisa se materializar. Câmera que registra, que congela um momento, apreende e grava um movimento, pausa, eterniza o efêmero (ou pelo menos nos dá a impressão que sim), e cria a  possibilidade de ver de novo, de voltar a algum tempo e espaço através da imagem e de dialogar com a impermanência das coisas. Nessa perspectiva, podemos transformar pedaços de madeira e 1 olho mágico em uma claquetocâmera imaginária, um dispositivo para transver o mundo. Transver é ação. Entrar em cena, atuar, atores e diretores do filme que é a vida. Rever histórias, roteiros, diálogos, improvisações e cenários, despertando nossa capacidade de visualizar mundos mais alinhados com o olhar do coração. Assim como o coração tem seu ritmo vital do qual não se pode prescindir, o movimentar do corpo nos traz vitalidade e faz com que nossos órgãos criem visão e nos tornem mais aptos, se não para a materialização completa do mundo que queremos, pelo menos para a visualização das formas almejadas.

Podemos até certo ponto comparar o sistema humano com câmeras, mas devemos nos lembrar que temos a capacidade de captar e projetar a luz que vem de fora, e também a capacidade de captar e projetar a luz que vem de dentro. Abrir o olho-coração pode ser o caminho para sairmos do padrão do ‘traço acostumado’, da ‘expressão reta que não sonha’ que Manoel de Barros denuncia. Há sérios indícios de que a forma sisuda e rígida com que alguns mundos conhecidos têm insistido em caminhar esteja causando estragos no grande corpo de que somos células. Há hilários indícios de que as estruturas rígidas estão precisando relaxar e de que o conhecimento precisa de outras vias, as mais divertidas, inspiradoras e excitantes. Para concluir este manifesto, trazemos esta poesia audiovisual.

POEMA MIRADA
Por Juliana Guerra Motta

Uma câmera
Um olho
Que para se humanizar
precisa de um observador
Para emprestar alma
Para animar o olhar
O observador desperto
acorda no objeto observado
uma resposta quântica
Que pode ser de amor
Que pode ser de vazio
Que pode ser de dor
Para despertar a resposta amorosa
O observador e observado
precisam saber-se
faroleiros
capazes de iluminar
seu próprio potencial humano
no outro
em si
 
Uma câmera
ultra sensível
Um coração
Olho interno
me abro, diafragma
quero captar a luz
de forma que me revele
apta para o mundo que desejo
Quero a luz branda da manhã?
Ou aquela do fim da tarde?
A do meio dia que me desfará
momentaneamente as sombras?
Quero a luz de Deus
um clarão da transvisão
Alternado com as cores do fim do dia
Que reúna o visto, o não visto
A sombra e a água que refresca
E que me revele
A existência do mundo que quero
Ainda apenas esquecido
a espera, na espreita
nos 10 segundos para um disparo
No lugar que mais sei
de mim.
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