PISCADAS [De onde vejo o mundo]

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Assista o microvídeo Moysés, Dentista, de Igor Amin e Rodrigo Pazzini (2006) em https://www.youtube.com/watch?v=2Pg4Xg8otcc.

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Confira matérias e artigos acadêmicos que citam nossa experiência com o microvídeo Moysés, Dentista:

 Acesse a matéria no jornal Estadão:
https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-participa-de-festival-de-filmes-com-celular-em-paris,7629

Horizontes Transversais: Artes da Imagem e do Som em Minas Gerais (2000-2010), pesquisa de mestrado de Ana Moraes Vieira.
https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/JSSS-8ZBFXB/1/horizontes_transversais_ana_moraes_vieira.pdf

Ativista do afeto, da espiritualidade e da co-criação. O primeiro vídeo de Amin surgiu dentro de uma oficina com Rodrigo Minelli na primeira edição do arte.mov – Festival de Arte e Mídias Móveis, realizado em Belo Horizonte em 2006. Com um celular e uma tremenda vontade de produzir alimentada pelas constantes pesquisas, Amin partiu para realizar Moysés, Dentista121 (2006), uma divertida intervenção carregada de ironia com o imaginário das câmeras de vigilância, bombas-relógio e segurança interna. Filmado e editado em celular, foi enviado do aparelho para o Youtube. Moysés, Dentista alcançou mais de 5 mil espectadores na internet e participou da mostra competitiva do Pocket Film Festival (2007), evento francês de mídias móveis, sendo exibido no Centre Georges-Pompidou. Amin voltou da França impressionado com o impacto que as mídias móveis podem ter na vida de uma pessoa e muito estimulado a pesquisar e produzir com essas mídias. (VIEIRA, 2012, P. 113).

Livro Cinema de Garagem – panorama da produção brasileira independente do novo século, de Marcelo Ikeda e Dellani Lima (orgs.).
https://arthurtuoto.com/livros/CINEMA-DE-GARAGEM.pdf (Acessado em 14/09/19)

Hoje em dia, nós, cidadãos vigiados a todo momento, não teríamos também o direito de vigiar? Se o vídeo de Roberto Bellini não faz essa pergunta de forma direta, mas, claro, constrói um contexto que provoca essa e outras questões, é exatamente essa a pergunta que Igor Amin faz para o segurança de um supermercado, enquanto o artista grava, com seu celular, a câmera de vigilância do estabelecimento que o filma. Ou seja, o artista filma a câmera que o filma, uma espécie de confronto conceitual e simbólico, duas lentes que apontam uma para a outra como duas armas em um embate do olhar. O projeto Nem só o que anda é móvel, liderado pelos artistas Igor Amin e Vinícius Cabral, parte de ações muitas vezes simbólicas como essa para evidenciar uma certa semiótica da vigilância e dos novos meios. Utilizando-se de registros instáveis e ruidosos, os vídeos da dupla mantêm uma linha de força bastante particular que vislumbra não só conceitos de vigilância e olhar, mas uma certa representação subversiva da mídia que nos cerca, desconstruindo um imaginário globalizado que toca em questões como atentados, suicídios simbólicos, terrorismo e outras manifestações sempre presentes no cotidiano jornalístico. Uma paisagem sempre instável daquilo que nos chega através da TV e da internet, porém subvertida para uma estética do detrito, da baixa resolução, caso, aliás, deste Mohammed Gameover (2008), aqui exibido. O projeto, em sua magnitude, dividido por playlists temáticas e sempre irônicas, constrói um painel digital que vislumbra tanto ações mais diretas, frutos de intervenções que se apropriam do próprio dispositivo tanto como gerador de uma situação simbólica (caso do vídeo Moysés, Dentista [2006]), quanto dessas pinturas tecnológicas da baixa resolução, sempre instigantes tanto em suas possibilidades plásticas como políticas. …A simulação desses dispositivos na obra de Lisboa é outro indicativo de uma geração que, como aquela de Igor Amin e Vinícius Cabral do projeto Nem só o que anda é móvel, ao invés de permanecer passiva perante essa nova ordem das imagens, essa semiótica do poder, é bastante feliz ao se apropriar dessas mesmas estratégias e criar obras subversivas nesse sentido, que se utilizam do audiovisual para um questionamento atual e sempre inspirador. (IKEDA, LIMA. 2012. Pág. 45-47).

Imagens da biopolítica, de Eduardo Antônio de Jesus.
https://www.academia.edu/4168891/Imagens_da_biopolítica (Acessado em 14/09/19)

Sabemos que nossa memória é composta por fragmentos e estilhaços de nossas experiências, inclusive com o circuito midiático. Isso faz com que os sistemas colaborativos de veiculação de audiovisual online, como o vimeo ou o youtube, transformem-se em verdadeiros ancoradouros da memória, revelando as subjetividades que estiveram em contato com aquelas imagens. Longe da novidade atordoante da mais nova resolução do vídeo digital, algumas vezes é possível passar horas vendo imagens de antigos programas de televisão, vinhetas e antigos videoclipes que ainda trazem a cor e o esgarçamento do VHS, mesmo quando já está online… Moysés, dentista (2006), de Igor Amin e Rodrigo Pazzini.  O procedimento simples e despretensioso com o aparelho de celular acaba por revelar a estranha insegurança que habita a vida contemporânea. Tomando partido de uma espécie de “pegadinha”, o vídeo acaba por revelar os medos e tensões típicas de hoje em dia. (JESUS, 2009)

Por coincidência ou não, a experiência de ir a França em 2007 para o Pocket Films foi marcante em minha vida. Esse é um dos primeiros e mais importantes festivais de filmes para celular do mundo, realizado no Centre George Pompidou de arte contemporânea em Paris, local onde estão obras de artistas como Marcel Duchamp. Foi marcante em minha vida o impacto que a cultura digital trouxe já que essa foi minha primeira viagem para fora do Brasil.

O vídeo Moysés, Dentista surgiu por uma inquietação ao participar do grupo de estudos Poéticas Audiovisuais Contemporâneas, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde me formei em Comunicação Social. Lá iniciamos uma pesquisa e um artigo sobre Videoblogs (o que viria a ser hoje o fenômeno dos youtubers, influenciadores e blogueiros). O trabalho foi apresentado ao INTERCOM Júnior, no XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (acesse em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0788-1.pdf).

Eu não entendia de forma alguma as reflexões de Gilles Deleuze e Michel Foucault naquela época e isso me levou a questionar sobre a ideia de “dispositivo” trazida por eles. Como transformar meu celular em um “dispositivo” para fazer vídeos. Nasce a ideia do microvídeo Moysés, Dentista, que me levou na França para uma viagem ao festival de cinema Pocket Films, país de origem dos dois teóricos, mas também onde nasceu o cinema. Abaixo, um trecho do artigo de minha coautoria “Videoblog: anotações iniciais acerca do dispositivo”, que teve a supervisão de um querido professor que foi fundamental em minha caminhada, Eduardo Antônio de Jesus:

Apesar da presença constante da instabilidade no dispositivo, da ausência de uma centralidade em sua estrutura, é possível pensá-lo, identificá-lo, traçar suas linhas. De acordo com Gilles Deleuze (1990: 155), “desemaranhar as linhas de um dispositivo é, em cada caso, traçar um mapa, cartografar, percorrer terras desconhecidas, é o que Foucault chama de ‘trabalho em terreno’ ”. Antes de tudo, é preciso que se pense o dispositivo além da idéia de suporte, de uma ferramenta estrutural, formal; mais do que isso, ele é uma rede de relações repleta de elementos heterogêneos. O dispositivo trata-se então, como define André Brasil (2004: http://www.fca.pucminas.br/ceis/kripticas3.asp), “de uma articulação multilinear, composta por fios visíveis e invisíveis, materiais e imateriais, de origem e natureza diferentes”. O dispositivo é então, um emaranhado de relações que não se complementam e nem se anulam; as linhas não apenas o compõe, como também o atravessam. O dispositivo é um modo de traçar relações que envolvem tanto o objeto quanto o observador, numa espécie de multiplicidade. Nas linhas de força que compõem o dispositivo, já existem as potencialidades que podem mudar a sua maneira de funcionar. Segundo Deleuze (1990: 159), “todo o dispositivo se define, pois, pelo que detém em novidade e criatividade, o qual marca, ao mesmo tempo, sua capacidade de se transformar ou se fissurar em proveito de um dispositivo futuro”.

Mais de 12 anos depois de toda essa experiência relatada, fui ler o livro “A Tela Global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna.”, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (Ed. Sulina, Porto Alegre: 2009. 326 p.), que consta nas referências bibliográficas desta pesquisa. Fiquei surpreso ao ler sobre um fenômeno citado pelos autores “Cinemania: a cada um, seu filme”:

O fato é que a questão da criatividade pessoal por meio da tela adquiriu uma dimensão inédita, cuja importância não escapa aos atores do mundo da arte, da cultura, da informação, da publicidade, diante da emergência de criadores que agora dispõem não só de meios novos para criar, mas também para se fazer conhecer. …Superexposição, da vida em seus menores detalhes, “sublimação” do cotidiano como cena extraordinária: a tela on-line permite que as paixões exibicionistas e hipernarcísicas se manifestem numa escala desconhecida até então. Mas é sobretudo uma espécie de cinemania-reflexa que registra uma impressionante expansão. …O que se deve esse frenesi de imagens? Como compreender uma tal cinemania que substitui a experiência direta? Pode-se reconhecer aí, certamente, uma democratização dos desejos de expressão individual, um desejo de atividade pessoal que se verifica em outras práticas – escrita, blog, dança, caraoquê, artes plásticas – e que traduz a necessidade de escapar à simples condição de Homo condommator. O individualismo hipermoderno não é apenas consumista: ele busca reconquistar espaços de autonomia pessoal, construir-se apropriando-se do que está fora, colocar em imagem e em cena o mundo, um pouco à maneira de um repórter, de um fotógrafo, de um cineasta. (Nota 33: Essa nova paixão individualista é estimulada por diferentes sites que convidam os internautas a colocar on-line suas fotos e vídeos. Cada um se torna cinerrepórter amador em potência). Filmo, logo existo: agora existe em cada homem, em seu tempo livre, o desejo de ser “artista”, “cineasta”, a relação com o mundo sendo cada vez mais estética. (Nota 34: É o que revela o festival Pocket Films, organizado em Paris pela terceira vez em 2007, apresentando numa grande tela 200 produções de “filmes de bolso’ realizados por e para telefone celular.). Uma nova fronteira se desenha: ela não é senão a expressividade de si erigida em ideal de massa. … Assim a cinemania não deixa de ter relação com o hiperconsumidor perpetuamente à espera de novas experiências de distração, destinadas a compensar os tempos mortos da vida.

É impressionante o relato acima, pois além de ser exatamente o fenômeno a qual eu estava me atentando em 2007, minha vida foi parte deste fenômeno, pois o filme Moysés, Dentista estava sendo exibido exatamente na terceira edição do Pocket Films citada na nota de rodapé 34 do livro referenciado acima. Foi a partir de tudo isso que me tornei um jovem cineasta e resolvi lançar na experimentação de novas linguagens do audiovisuais com jovens e crianças a partir do contexto da cinemania que já intuía nascer nos anos sequentes.

Liguem seus celulares no cinema: Breve história, linguagem e perspectivas de Márcia Cristina da Silva Sousa e Wilson Oliveira da Silva Filho
http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-encontro-2008-1/Liguem%20seus%20celulares%20no%20cinema.pdf (Acessado em 14/09/19)

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Assista a websérie Luzcamerização do Olhar. São três episódios gravados na cidade de Cuiabá durante oficinas, exposição e o II fórum do projeto O que queremos para o mundo? em 2018. Você pode assistir tudinho abaixo:

Episódio I: O CONTEXTO DA ESCOLA

Episódio II: O LUGAR DA FALA

Episódio III: O TEMPO DA ESCUTA

[Filmeducar: Realizar processos de ensino-aprendizagem através de filmes.

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Ouça uma entrevista curta sobre a história de como nasceu o projeto “O que queremos para o mundo?”. Conversa realizada na estreia do nosso filme na Mostra Infantil de Cinema de Florianópolis.



[BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Currículos e Educação Integral. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Brasília, 2013. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/docman/julho-2013-pdf/13677-diretrizes-educacao-basica-2013-pdf/file>. Acesso em: 15 agosto de 2019.

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