Diário de Bordo #1 // Angola
Por Igor Amin

O primeiro “relato” será o de uma viagem realizada em 2017, onde fomos celebrar o “Dia da Criança Africana” à convite da Embaixada do Brasil em Angola e Centro Cultural Brasil-Angola. Foi em Luanda onde conhecemos o grupo de dança das crianças “A Malta da Paz e da Alegria”. A data do 16 de Junho é marcante devido ao Levante de Soweto, marco durante a Apartheid na África do Sul onde crianças lutaram por seus direitos culturais e foram massacradas. O fato despertou no mundo a necessidade dos diretos da infância e adolescência e fomos para África para resgatar esse momento que vai além de uma celebração das crianças, mais uma memória do protagonismo e da ação das crianças como agentes transformadores da sociedade.

O poder não está só dominando as telas, mas as telas também possuem seu poder de gerar conexões profundas. Recebemos uma mensagem em nossa página do facebook vinda da diretoria do Centro Cultural Brasil-Angola nos convidando para apresentar nosso longa-metragem em Luanda, um dos conteúdos do projeto. O convite não era para exibir o filme em qualquer dia, mas no Dia Internacional da Criança Africana. Este dia é celebrado em 16 de junho, dia em que no ano de 1976 aconteceu o massacre do Soweto, em Joanesburgo, na África do Sul. O convite de Nídia ia além do filme, pois a ideia era de como nosso projeto podia ajudar a conscientizar as crianças do que elas queriam para o mundo, relembrando uma data importante que vinha sendo deixada de lado no sentido da essência de sua comemoração.

Uma responsabilidade tremenda ao nosso projeto, já que estávamos indo para conhecer àquelas que representavam milhares de estudantes que saíram às ruas em protesto contra a fraca qualidade de ensino e contra o ensino obrigatório do Afrikaans, língua adota pela minoria branca do país no apartheid e não a língua materna das crianças e jovens da escola de Soweto. A manifestação que pretendia ser pacífica, acabou virando uma repressão policial transformou um possível comício num massacre levando a morte de quase 700 crianças e jovens. Um dos mortos foi o estudante que liderava o levante Hector Pieterson (13 anos) que se tornou símbolo do massacre.

Em memória das crianças africanas mortas a 16 de junho de 1976 e em prol das crianças africanas do presente e do futuro que se instituiu em 1991 o Dia Internacional da Criança Africana. Todos os anos este dia merece a atenção da UNICEF e de outras organizações mundiais que organizam eventos variados tendo em vista a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente em defesa dos direitos das crianças na África e em todo mundo. Seria necessário um texto específico só para contar como foi realizar oficinas e exibir o filme para mais de 200 crianças de um orfanato, algumas delas tendo o contato com o cinema e câmeras de realidade virtual pela primeira vez na vida. Em síntese, trazemos o poder das palavras narradas pelas crianças, estas que foram as primeiras a jogar o Jogo dos Mundos. As seis crianças que faziam parte do grupo de dança e música Malta da Paz e da Alegria, soltaram alegremente o verbo para nos dizer o que queriam para o mundo. O que me tocou foi a simples resposta das crianças para a câmera, inteiramente presentes, alegres, empolgadas em poder expressar o que queriam para o mundo. Elas disseram “Luz, Câmera, Ação. O que queremos para o mundo?” e de forma espontânea, sem combinar, foram naturalmente dizendo as palavras como em uma atuação para um filme “Nós queremos Liberdade, Amor, Carinho, Alegria, Paz, Saúde. Nós somos a Malta da Paz e da Alegria.” Malta era uma palavra nova para mim, que descobri com elas que significava povo, galera, multidão. Essas seis crianças representam para mim uma multidão de crianças que querem liberdade, a primeira palavra mencionada por elas para a câmera e que jamais esquecerei.

FIM